Capoeira

Estudo comparativo de lesões musculoesqueléticas em diferentes modalidades de capoeira

Mansueto Gomes Neto(1), Meirijane Conceição do Rosário(2), Fabio Luciano Arcanjo(3), Cristiano Sena Conceição(3). Universidade Federal da Bahia –Salvador, BA – Brasil.

INTRODUÇÃO

A Capoeira foi originada no Brasil no século XVIII, na época da colonização, uma manifestação cultural que houve evolução para um esporte nacional brasileiro. Um esporte de agilidade corporal, equilíbrio, destreza, golpes de defesa e ataque, com coreografias, saltos, aterrissagens. Teve influência de esporte existente na época como: judô, jiu-jítsu, karatê, tae-kwon-do e lutas livres. Atualmente existem duas modalidades de capoeira praticada no Brasil, a capoeira Angola, criada na época da escravidão com fundamentos, flexibilidade, com os golpes lentos, baixa velocidade, onde grande parte dos movimentos requer ambas as mãos no chão, as pernas são levantadas com pouca altura, flexionadas, com o tronco e a cintura baixa. A capoeira Regional foi modificada incorporando técnicas de outras lutas, com movimentos de agarramentos, golpes de ponta pé, golpe de mão influenciada do boxe, com movimentos velozes e bruscos, movimentos acrobáticos (saltos), pernadas rápidas.

As manobras e golpes desenvolvidos na capoeira preconizam-se por movimentos circulares comumente realizados no solo e, na maioria das vezes de cabeça pra baixo, em que ocorre a sobrecarga no aparelho locomotor, e o corpo sofre com constantes giros, acarretando impactos nas articulações durante a competição ou treinamento. Atividades com repetição de movimentos, impacto e sobrecarga, aumentam as chances de lesões principalmente em atletas mal condicionados, que realizam golpes de forma inadequada. Um bom treinamento requer organização, acompanhamento, exercícios funcionais que orientem a execução da modalidade desejada. Fradkin et al.(41) realizaram uma revisão sistemática, na qual investigou-se os efeitos do aquecimento sobre a prevenção de lesões, a maioria dos estudos estudados reportaram que o aquecimento realizado antes do exercício reduziu significativamente a incidência de lesão. É imprescindível um tempo de recuperação das estruturas do sistema motor após um treino intenso.

Algumas lesões podem ser desenvolvidas na prática de capoeira como: distensão, contusão, estiramento, contratura muscular, entorses. Durante a ginga, saltos, deslocamento de direção, e na execução de alguns golpes. A combinação de diferentes fatores, como a organização esportiva, o treinamento técnico, o sistema de competições e a falta de estrutura adequada, pode favorecer riscos para a saúde dos praticantes. É importante identificar os fatores que levam a lesões musculoesqueléticas em praticantes de capoeira, por ser um esporte de impacto, aumentando a chance de lesões por sobrecarga, treinos intensos, repetitivos e deslocamentos rápidos dos movimentos ou pela realização inadequada da técnica. Além disso, são escassos estudos biodinâmicos em capoeira e conhecer o perfil das lesões de acordo com o tipo de capoeira realizado pode contribuir para que sejam elaboradas estratégias que possam minimizar as lesões durante a prática. Assim, o objetivo do estudo foi comparar a frequência de lesões em diferentes modalidades de capoeira e identificar possíveis fatores associados.

MÉTODOS

Foi realizado um estudo transversal e analítico, que foi realizado nas academias de grupo de capoeira Angola e Regional da cidade de Salvador Bahia. A amostra foi constituída por 49 voluntários, de ambos os sexos, graduados e que não praticassem outras atividades físicas e/ou esportivas. No inicio todos os atleta foram orientado quanto á pesquisa, posteriormente assinaram um termo de consentimento formal livre e esclarecido de acordo com a resolução nº 196/96 do conselho nacional de saúde, o projeto foi aprovado com o protocolo nº 3440, na reunião plenária do CEP / IMES. Os voluntários foram submetidos a responder um questionário elaborado auto-aplicável, com questões fechadas, onde foi respondido individualmente e a caneta, na academia e em sua residência. O questionário foi explicado ao ser entregue, o tempo médio estimado da aplicação foi de um dia. O questionário foi elaborado pelos autores, contendo 12 questões, com dados pessoais do atleta, incluindo sexo, idade, etnia e questões relacionadas a pratica da capoeira, como tempo de prática, a frequência de treinos por semana, o tempo em horas de cada treino, graduação, se o atleta pratica outro esporte além da capoeira, o treino de capoeira por quem era preparado e se o treinamento e acompanhado pelo treinador. Na terceira parte foram realizadas perguntas relativa a lesão, histórico de lesão, numero de vezes que ocorreu a lesão, localizações das lesões, se a lesão foi em treino ou competição, tempo de afastamento do treinamento por parte do atleta devido à lesão, se a lesão foi diagnosticada por médico, tipo de diagnostico e método utilizado para o treinamento.

Estatística descritiva foi realizada para análise dos dados demográficos e clínicos, os dados de variáveis contínuas e categorias. Para análise da normalidade dos dados foi utilizado o teste Kolmogorov-Smirnov. Como os dados foram distribuídos de forma paramétrica, o teste t de estudente para amostras independentes e o qui-quadrado x² foram utilizados para comparação das variáveis do estudo entre grupos. A análise foi realizada com uso do software SPSS (Statistical Package for the Social Sciences) for Windows (versão 14.0), foi estabelecido um nível de significância α = 0,05.

RESULTADOS

Não houve diferença estatisticamente significativa entre idade e sexo na comparação entre grupos p>0,05. Na comparação da frequência e de lesão e numero de lesões houve diferença significativa (p<0,05) entre os grupos, com maior frequência e numero de lesões na modalidade regional. Na capoeira Regional, lesão 1 o local mais acometido foi o joelho com 6 (25,0%), seguido de ombro 4(16,7%), punho 3(12,5%), lombar 2(8,3%), coxa 2(8,3%), e pé 1(4,2%) 3(12,0%), coxa 1(4,0%), pé 1(4,0%), os tipos de lesão foram tipo 1 na capoeira Regional, houve luxação 6(25,0%), lesão muscular 3(12,5%), fratura 3(12,3%), contusão 2(8,3%), dor lombar 2(8,3%), entorse 1(4,2%), sem diagnóstico 1(4,2 2(8,0%), lesão muscular 2(8,0%), luxação 2(8,0%), entorse 1 (4,0%), e fratura 1(4,0%). Na lesão 2, na Regional tornozelo 5(20,8%), punho 2(8,3%), braço ( 4,2%), coxa 1(4,2%), joelho 1 (4,2%), e pé 1 (4,2%). tipo 2, entorse 3 (12,5%), lesão muscular 3 (12,5%), contusão 2 (8,3%), luxação 2 (8,3%), fratura 1(4,2%). Lesão 3 , lombar 2(8,3%), punho 1(4,2%), braço 1(4,2%), tornozelo 1 (4,2%), tipo 3 dor lombar 2 (8,3%), lesão muscular 2 (8,3%), contusão 1(4,2%). Na capoeira Angola o local mais acometido foi o ombro 3(12,0%), tornozelo 3(12,0%), coxa 1(4,0%), pé 1(4,0%). Tipo de lesão foram contusão 2 (8,0%), lesão muscular 2(8,0%), luxação 2(8,0%), entorse 1(4,0%) e fratura 1(4,0%). Na capoeira Regional o treino preparado pelo mestre dos 23(95,8%), e pelo próprio atleta foi de 1(4,2%), na capoeira Angola o treino preparado pelo mestre foi de 24(96,0%), e 1 (4,0%) pelo atleta. Na Regional o treino acompanhado o tempo todo foi 21(87,5%), parte do tempo 1(4,2%), não acompanhado 2(8,3%), já na Angola o treino acompanhado todo o tempo foi 24(96,0%), e não acompanhado 1(4,0%).

DISCUSSÃO

Neste estudo os resultados obtidos revelam que a capoeira Regional é a modalidade que leva maior índice de lesões em seus praticantes. Moraes em seu estudo informa que o estilo de capoeira com o maior adepto a lesão foi a Regional, onde os movimentos e golpes são bruscos e em alta velocidade, estando os praticantes mais suscetíveis às lesões, diferente da Angola. Os segmentos mais acometidos na capoeira Regional foram joelhos e tornozelos, foram encontrados resultados semelhantes em outros estudos, Signoret (2009). Dos 16 capoeiristas avaliados, cerca de (68,75%), sofreram lesões e os segmentos mais acometidos foi os tornozelos e pés (31,25%), seguido de face, ombro, mãos, e joelhos em menores proporções. Bonfim et al, relata que as lesões no joelho, ligamento cruzado anterior, ocorrem nas praticas esportivas, naquelas que envolvem rotação e saltos. As lesões do ligamento colateral medial e meniscos, também são comuns e responsáveis por uma considerável quantidade de tempo nos esportes. Sena et al observou que as lesões de joelho, com predominância de ligamento cruzado anterior e menisco, pode ocorrer em decorrência da postura do individuo, estando mais sujeito a acontecer através dos deslocamentos rápidos (ginga, golpes, e giratórios), repetições de movimentos, devido também ao pé de apoio no solo, ocasionando a força de atrito e resultando na força de reação do solo, onde dependendo do piso e o individuo estando descalço será menor e calçados será maior. Em outro estudo relatam que as lesões do joelho em capoeiristas também podem estar associadas ao excesso de peso do corpo, repetições dos movimentos de flexo-extensão, provocando desgaste nesta articulação. Roquette et al (1994) descrevem vários fatores que ocasionam desgaste na estrutura física do atleta, o frequente impacto advindo de quedas, a forma de aterrissagem são um dos fatores desencadeante de lesões musculares. Achour Júnior (1995) salienta que as habilidades atléticas que não exploram o movimento em Tabela 1. Características demográficas e frequência de lesão entre modalidades.

Brennecke et al (2000), afirmam que uns dos movimentos que podem gerar maior carga externa dentre os movimentos da capoeira estudado e a “armada pulada” e o “parafuso”, pode causar lesões em diversas estruturas biológicas, deve ser evitada as repetições desses movimentos no treino, já que em competição dificilmente se executa os mesmos movimentos diversas vezes. Segundo Kendal et al (1995), os capoeiristas para realizar algumas manobras, ocorre o mecanismo compensatório da coluna vertebral, para aumentar o ângulo do chute, e acaba desenvolvendo encurtamento dos músculos e dores na coluna vertebral. No estudo mostra que a prevalência de lesões musculoesqueléticas assemelha-se entre homens e mulheres e em diferentes idades. Moraes et al correlaciona a dor lombar e o sexo, mostrando significativa (p=0,001), e foi mais notada em capoeiristas do sexo feminino(55%). Papageorgiou et al. afirmam em seu estudo que a prevalência de lombalgia em relação a diferença de sexo, variaria também, de acordo com a idade. Observou que abaixo de 30 anos atacou as mulheres, 45 e 59 anos, foi mais frequente nos homens. Junior, diz que aproximadamente 54% das pessoas que jogam capoeira utilizando calçados, sentem dores na região do menisco e na região lombar, pois essas lesões estão associadas aos calçados que não são apropriados para treino ou competição. E a modalidade que costuma usar calçados é a Angola. O treinamento foi executado 3 vezes por semana com tempo de treino 2 horas diária. Esportes competitivos, como os de lutas, obrigam a treinamentos intensos e longos, havendo sem duvida sobrecarga ao corpo humano, e neste aspecto, o joelho fica vulnerável, seja em atletas ou esportistas. Em relação ao tipo de lesões, na capoeira Regional foi mais frequente a luxação e fratura, na Angola foi a lesão muscular e contusão, as lesões ocorreram em ambos os sexos e idades, enquanto que em outro estudo, houve maior prevalência de dor lombar e mais frequente no sexo feminino. Nos esportes de contato, o atleta é ainda mais suscetível, pois além destes fatores, ainda esta envolvido o peso do outro atleta, levando a uma maior sobrecarga. Os capoeiristas relataram não realizar outras atividades físicas além da capoeira, o que demonstra sua fidelidade ao esporte, com frequência regular e dedicação de tempo semanal. Apesar do acompanhamento e orientação dos treinos pelo mestre, a alta taxa de lesão é preocupante. Assim, uma completa avaliação musculoesquelética de um atleta previamente lesado e um completo planejamento de prevenção e reabilitação pode ser o meio mais efetivo para diagnosticar e controlar as lesões esportivas. Conclui-se que a modalidade Regional por utilização de movimentos bruscos tem maior prevalência de lesões do tipo luxação, fratura, que acometem principalmente o joelho, tornozelo, seguido do ombro, na capoeira Angola, o local mais acometido foi ombro e tornozelo, os tipos de lesões foram: contusão, lesão muscular.